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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O mito da verdade "real".

A chamada verdade "real" é um mito que ensinam aos estudantes de direito nas faculdades, principalmente no que diz respeito à busca por tal verdade através de depoimentos testemunhais.

Como mito, nada mais é do que uma narrativa carregada de simbolismo, mas não passa disso.

Não há como se falar em verdade "real", nem tampouco em verdade, numa mera reprodução de fatos que ficaram no passado.

O que existem, quando existem, são "verdades", versões filtradas sob prismas dos mais diversos.

Se alguém deixar um prego cair numa sala cheia de pessoas, ainda que suas atenções estejam todas voltadas para isso, cada uma, ao ser indagada logo em seguida, certamente trará uma narrativa diferente para o que foi observado, sobre a queda do prego (alguns dirão que não foi uma queda, mas um empurrão;  outras dirão até que não era um prego, mas um parafuso...), e cada uma dessas versões serão uma "verdade" em si mesma.

Ninguém mentiu, mas sim cada um tentou reproduzir a sua verdade em seu depoimento sobre o fato observado, e que ficou no passado.

A verdade, portanto, é que não existe uma verdade "real", ela será sempre "formal", ou seja, fruto de uma construção ou reconstrução retórica, amparada naquilo que a testemunha observou, processou em seu intelecto e passou a reproduzir.

Todo juiz deveria se preocupar com isso.

A porta da verdade estava aberta, 
mas só deixava passar 
meia pessoa de cada vez. 
Assim não era possível atingir toda a verdade, 
porque a meia pessoa que entrava 
só trazia o perfil de meia verdade. 
E sua segunda metade 
voltava igualmente com meio perfil. 
E os meios perfis não coincidiam. 
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. 
Chegaram ao lugar luminoso 
onde a verdade esplendia seus fogos. 
Era dividida em metades 
diferentes uma da outra. 
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. 
Nenhuma das duas era totalmente bela. 
E carecia optar. Cada um optou conforme 
seu capricho, sua ilusão, sua miopia. 
(Carlos Drummond de Andrade)